ESPETÁCULOS

A TRAVESSIA DA CALUNGA GRANDE

 
Programa
Sinopse/Realese

 

Na peça “A Travessia da Calunga Grande”, o barco-país itinerante Fortuna Tropical é uma alegoria do modo de funcionamento da própria sociedade brasileira, desde a sua colonização até a época atual. O navio negreiro em trânsito eterno à cata de escravos, nunca aportando em terra firme, alude à perpetuação dos crimes da escravidão numa sociedade moderna que apregoa a falsa conciliação das diferenças. A bordo dessa “terra fluida”, a tripulação desconhece a sua própria identidade e, justamente por isso, revela-se intolerante para com o próximo. O Brasil ainda cabe em um navio negreiro.

A saga começa com uma tempestade. A água entra na casa de máquinas do navio, quebrando uma peça importante na engrenagem do motor: o seu coração. O Fortuna Tropical usa o sangue dos corpos escravizados como combustível para manter-se em movimento eterno. Se o barco parar, a Esfinge – um monstro horrendo que vive na cola da espuma levantada pelo navio veloz – aniquila toda a tripulação.  Todos temem a Esfinge por não saberem lidar com ela. Nenhum dali soube desvendar a pergunta que ela sempre faz: quem é você de verdade? Aparentemente, a tripulação não tem outra saída, que não fugir. Eternamente, e às custas de muito sangue. 

É a Cabine de Controle que trata de manter o barco sempre em movimento. Alocados na casa de máquinas, a Cabine de Controle é composta por três figuras que manipulam as cordas da superestrutura de poder da sociedade naval. São eles o Assassino, o Diplomata e o Cientista. Cada um à sua maneira, os três se encarregam da manutenção e do funcionamento de um regime de exploração graças ao uso combinado de violência, retórica e ciência. São eles que azeitam as engrenagens do poder, garantido sobretudo os seus interesses.

Após a tempestade, porém, um sobrevivente do porão aceita consertar a peça quebrada da casa de máquinas em troca de alguns privilégios cedidos pela Cabine de Controle. O barco volta a andar, o sobrevivente consegue uma nova identidade e conquista uma posição privilegiada na sociedade. Passa a chamar-se Tanto Faz McCarty, é alçado ao posto de capitão do navio e acata a tarefa de coletar o máximo de sangue que conseguir de seus conterrâneos. Tanto Faz McCarty trairá, pois, os seus. Esquecerá de uma vez o seu passado para assegurar o seu futuro de prosperidade como Capitão e Rei.

Do porão emerge também Nora, a camareira da embarcação. Originária de uma tribo guerreira, Nora quase morre afogada na tempestade. Bóia em uma privada velha por dias a fio, até ser resgatada de volta à embarcação. Na primeira oportunidade, troca o serviço de limpeza das cabines pela higienização de um país estropiado. Chama a atenção da Casa de Máquinas por seu alto poder de convencimento junto ao povo – afinal, ela viera dali. É persuadida pelo Assassino, pelo Diplomata e pelo Cientista a querer conquistar mais em troca de alguns favores escusos. E aceita. Sua sede de poder a leva a atitudes extremadas de descontrole e maus tratos da população. 

À medida que estes dois protagonistas se afastam mais e mais de suas identidades, a tripulação do barco vai ganhando força e constituindo um coro de resistência que dificulta o funcionamento dessa estrutura de poder viciada. O Coro do Porão é uma voz dissonante que se nega a baixar a cabeça, que se nega a acatar os disparates propostos por Nora e Tanto Faz McCarty ao longo de suas gestões. As crises deflagradas pela resistência do Coro do Porão levam Nora e Tanto FazMcCarty a se confrontarem com a sua maior fraqueza: a perda completa de sua identidade.

A “Travessia da Calunga Grande” parte de “Édipo Rei” de Sófocles para tocar em temas como crise de identidade e funcionamento das estruturas de poder em uma dada sociedade. De Nora ao Coro do Porão, todos os personagens da peça giram no vazio ao se darem conta de que, atrás de si, o caminho é totalmente desconhecido. Ou seja, de que eles não sabem quem são de verdade. O paralelo entre a tragédia grega e o histórico escravocrata que constitui a base de formação da sociedade brasileira gera a pergunta que impulsiona todas as ações da nossa peça: quem somos nós, afinal, e para onde estamos indo? A solução do enigma é a evidência da própria tragédia. 

Fotos
 
Vídeo
Ficha técnica original 

 

A Travessia da Grande Calunga 

Dramaturgia

Gabriela Almeida, em processo colaborativo com a Cia.Livre

 

Elenco

Lucia Romano, Edgar Castro, Eduardo Silva, Sidney Santiago, Tatiana Ribeiro e Raoni Garcia

Coordenação da pesquisa

Rodrigo Bonciani e Pedro Cesarino

 

Direção Musical

Lincoln Antonio

 

Direção de Ritmo

Beth Beli

Preparação Vocal

Lucia Gayotto

 

Preparação Corporal

Lú Favoretto

 

Direção de cena

Elisete Jeremias

 

Desenho de som

Ivan Garro

 

Assistência de direção

Luaa Gabanini

 

Estagiários de Direção

Florence Ciriaco, Luiz Antonio Farina, Olívia de Castro

 

Direção de Arte, Cenografia e Figurinos

Simone Mina

 

Direção de luz

Alessandra Domingues

Vídeo

Lennart Laberaenz

Visagismo

Emerson Murad

Assistência de cenografia

Stella Tennenbaum

Assistência de figurino

Karina Sato

Iluminadora assistente

Luana Gouveia

Assistência e operação de Luz

Felipe Boquimpane

Costureiro

Enrique Casas

Bordados

Karina Sato

Estagiárias de Figurino

Cláudia Neves, Caroline Lee

Estagiário de Iluminação

David Felipe e Felipe Boquimpane

Direção de Arte Gráfica

Simone Mina

Design Gráfico

Mateus Accioli

Textos e Seleção de Materiais do Programa

Rodrigo Bonciani

Direção de produção

Eneida de Souza

Assistência de Produção

Daniel Cordova

Produção Executiva

Éder Lopes

Fotos de divulgação

Cacá Bernardes

Direção

Cibele Forjaz

Assessoria de Imprensa

Arteplural

 
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